Uma morada como testemunha do tempo

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07/07/2016 19:18

Uma morada como testemunha do tempo
Casa foi uma das principais edificações de Minas do Camaquã

A história da pequena localidade de Minas do Camaquã e sua tradição mineradora está fortemente ligada a uma casa. Com paredes que guardam lembranças centenárias de um passado mesclado de encontros simples ou cheios de glamour, foi a sede da fazenda do coronel João Dias do Santos, considerado pelos moradores como o descobridor dos minérios do lugar.

Construída por volta de 1865, embora sua fachada exiba a data de 1880, é a primeira edificação de Minas do Camaquã, no interior de Caçapava do Sul. A construção segue firme e forte. Atualmente, abriga o escritório do Projeto Caçapava do Sul.

Para entender a história da casa e da própria vila, é preciso deixar a imaginação voltar ao Rio Grande do Sul de 1865, período caracterizado por estancieiros pecuaristas e disputas políticas entre liberais e conservadores.

De acordo com a geógrafa Stefanie Kohn Winter, em sua dissertação de mestrado “Reflexões Culturais sobre o Antigo Prédio do Clube Minas do Camaquã, Caçapava do Sul-RS”, Santos construiu a moradia após comprar de uma irmã as terras próximas ao curso do Rio Camaquã. Em sua pesquisa, Stefanie conta que, num determinado dia, ele foi dar uma volta nos campos e percebeu umas pedras diferentes em tons esverdeados.  

O professor da Escola Estadual Gladi Machado, de Minas do Camaquã, José Delfino Luiz de Ornelas, lecionou História por anos e guarda ‘causos’ a respeito do distrito e da própria edificação. Ele reforça o relato da tese de Stefanie, e conta que, ao ver seu cavalo tropeçar em uma rocha, João Dias descobriu o que mais tarde seria um dos minérios a serem extraídos do solo de Minas do Camaquã. “A partir dessa descoberta começou a época do cobre por aqui”, conta.  Por volta de 1865, o coronel conseguiu do então imperador D. Pedro II anuência para exploração do minério em suas terras. 

Época de Ouro

Naquela mesma época, na região onde hoje fica a cidade de Lavras do Sul, uma equipe de geólogos ingleses já explorava ouro. A parceria do estancieiro com os ingleses deu início a décadas de produção mineral. Posteriormente, em diferentes anos, alemães e belgas também se sucederam na compra dos direitos de exploração do cobre e contrataram trabalhadores, instalando novos moradores em Minas do Camaquã. Conforme Stefanie detalha em sua pesquisa, em 1906, João Dias ainda morava na fazenda que acabou se tornando também um armazém e ponto de encontro dos mineiros, assumindo importância no cotidiano dos que ali viviam.

Com o desinteresse estrangeiro, por diversos fatores, entre 1907 e 1928 ocorreu um período de estagnação na mineração local. O armazém fechou e o desemprego era geral. Porém, com a crise de 1929 – a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, conhecida como a Grande Depressão – o governo brasileiro precisou diversificar a economia nacional, baseada na agricultura de exportação e na pecuária. Criou-se, então, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) em 1934 e Minas do Camaquã passa a ser foco de atenção. “O preço do cobre no mercado internacional, entre os anos de 1939 e 1942, teve elevação, praticamente dobrou nesse período, e ainda tinha-se dificuldade em encontrá-lo”, esclarece Stefanie.

Em setembro de 1942, é criada a Companhia Brasileira do Cobre (CBC), empresa de capital misto entre o governo do Estado do Rio Grande do Sul e a Laminação Nacional de Metais de Francisco Pignatari. Desse ano até o início do ano de 1969, o prédio voltou a abrigar a função de armazém, quando foi vendido para a CBC e passou a abrigar o Clube dos Engenheiros.

As atividades do Clube dos Engenheiros duraram até o encerramento da produção de cobre no local. A casa passou até mesmo por um incêndio. Recentemente, os restos mortais do primeiro morador foram trazidos de Bagé, onde João Dias estava sepultado, e depositados ao lado da igreja.

Em 2008, passou por nova reforma, financiada por um particular, e hoje, as paredes que viram a história se desenrolar acompanham um novo ciclo em Minas do Camaquã.