Caçapavano guarda a história do tradicionalismo

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20/09/2016 16:27

Caçapavano guarda a história do tradicionalismo
Foto: João Mattos

Na semana em que é comemorada, no Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha, a equipe do Projeto Caçapava do Sul conversou com um ilustre filho da terra, um dos mais importantes nomes do tradicionalismo gaúcho, Zeno Chaves Dias. Homenageado como Patrono dos Festejos Farroupilhas 2016 no Estado, é natural da região de Seival, interior de Caçapava do Sul, cidade considerada a 2ª Capital Farroupilha. A entrevista aconteceu no Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, no dia em que uma centelha da Chama Crioula foi acesa em diversos espaços públicos da capital.

 

‘Tio’ Zeno, como é chamado, é responsável não só por resgatar a cultura tradicionalista, como também por construí-la. Nasceu no mesmo dia que o amigo de infância e parceiro de vida, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes. Personagem ativo desde o início do movimento de resgate das tradições e costumes gaúchos, em 1947, Zeno carrega na memória muitas histórias. O repertório imenso, que compartilha generosamente com precisão de detalhes, é resultado não só de suas experiências pessoais, mas também de intenso trabalho de pesquisa. É autor de livros como Pela palavra empenhada – a Revolução de 1932, obra que assina em parceria com Blau Souza.

 

Aos 89 anos e casado há 65 com D. Isaura, é pai de três filhos, tem sete netos e três bisnetos. Idealizador da Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha, sócio-fundador dos oito CTGs de Caçapava do Sul e associado, ao todo, a 32 entidades tradicionalistas, seu Zeno conta, em entrevista, histórias e ‘causos’ seus e do Rio Grande do Sul.

 

Qual foi seu envolvimento com a criação do movimento tradicionalista?
Zeno Chaves Dias -
 Em 1947, quando o movimento tradicionalista começou a se organizar, eu e o Paixão Côrtes tínhamos 20 anos. Havia um descontentamento muito grande, inclusive com os métodos de ensino, mas estávamos saindo de uma ditadura e não podíamos reclamar. No início de agosto de 47, o Paixão Cortes foi almoçar num restaurante em Porto Alegre e precisou ir ao sanitário.  Lá viu que a bandeira do Rio Grande do Sul estava servindo de porta do banheiro. Ele se revoltou com a situação e resolveu fazer alguma coisa.

 

Nesta ocasião, decidiu criar o Departamento Tradicionalista junto ao grêmio do Colégio Júlio de Castilhos com o objetivo de recuperar nossa cultura, agir de forma que não se perdesse a identidade cultural. A partir desse momento, Paixão passou a procurar autoridades, ainda meio sestroso, com medo, porque os grupos de jovens não eram bem recebidos naquela época. Houve ajuda do coronel chefe da Casa Militar do governo do Dr. Walter Jobim e do presidente da Liga de Defesa Nacional, Fortunato Pimentel. Paixão recebeu o apoio de ambos, que agendaram uma audiência com o governador.

No dia, Paixão compareceu ainda com receio, mas quando contou ao governador Walter Jobim que o objetivo do movimento era resgatar as tradições gaúchas. A ideia foi muito bem aceita. Já na ocasião, os meninos receberam a incumbência de escoltar a cavalo os restos mortais do herói farroupilha, David Canabarro, que chegou a Porto Alegre em 05 de setembro de 47. Eles conseguiram oito cavaleiros. Só não conseguiram nove porque eu não estava em Porto Alegre. João Carlos D’ávila Paixão Côrtes, os dois primos dele, João Machado Vieira e Fernando Machado Vieira, Cyro Dutra Ferreira, Ciro Dias da Costa, Orlando Jorge Degrazzia (era o mais moço de todos), Antonio João de Sá Siqueira e Cilço Campos escoltaram a cavalo os restos de David Canabarro.

 

Vocês tinham ideia de que o tradicionalismo cresceria tanto?
ZCD 
- Certeza não, mas esperança sim. Crescemos muito e muito rápido, mas não chegamos à perfeição. Falta muita coisa. O movimento é muito heterogêneo, tem do analfabeto ao intelectual. E tem lugar para todos. De 47 em diante, a coisa foi crescendo lentamente. Em Porto Alegre, eu mesmo comecei a participar mais a partir de 1949. Embora a gente não deixasse de participar por telefone.

 

O senhor foi presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MITG), não é?
ZCD  - 
Sim. Quando assumi meu primeiro ato foi convocar uma reunião em Ponta Grossa, no Paraná, para criar a Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG), da qual sou um dos patronos. Era uma forma de criar unidade. É importante que saibam quais os verdadeiros objetivos do tradicionalismo. Não basta só dançar, a área cultural tem de vir em primeiro lugar. O tradicionalismo também tem que se preocupar com os problemas que existem no Rio Grande, fazer prestação de serviços.

Fui muito questionado quando criei a Confederação porque diziam que eu estava invadindo culturas alheias. Contudo, saíram muitos gaúchos daqui, que foram tentar a vida em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás. Quando chegavam lá, dava saudade do pago, das coisas do Rio Grande, das tradições e costumes, e criavam um CTGs. Só que um CTG não sobrevive com 20 sócios. Aí, de repente, tínhamos diretorias inteiras formadas por gente de outros estados, que não eram obrigados a conhecer nossa cultura. Existem CTGs em todo o Brasil. E o medo que tínhamos era que as tradições fossem cultuadas equivocadamente. A CBTG criou um conjunto de regras.

 

O senhor participou da criação do Enarte, maior festival de arte amadora da América Latina. Como foi isso? 
ZCD - 
Em 1978, eu e o Dr. José Theodoro Bellaguarda de Menezes, promotor, fomos a uma reunião no CTG Estância de Montenegro, na cidade de mesmo nome. Lá a professora Carolina Sordi propôs que fizéssemos um festival de arte em parceria com o antigo Mobral. O pessoal não queria. “Imagina, fazer parceria entre MTG e Mobral”, diziam. Éramos 30 conselheiros e eu fiquei de relator. Pedi uma cópia para analisar, porque, como sempre digo, é importante pensar antes de decidir. Foram todos almoçar e eu fiquei lendo. Bati à máquina o parecer favorável e fiz a argumentação verbalmente.  Ora, o Estado pagaria as despesas, mas quem tinha os artistas éramos nós. O cantor, o músico, o declamador, a invernada artística. Pensei: mudam os governos e em algum momento a parceria vai acabar, mas depois de o festival acontecer por dois ou três anos, o pessoal vai gostar e não abandonará mais. E aí o MTG vai tomar conta.   E foi isso que aconteceu. Criamos o Fegart (Festival Gaúcho de Arte e Tradição), que hoje é o Enart (Encontro de Arte e Tradição Gaúcha). Sempre digo: decisão em cima da pedra, precipitada, é mau negócio.

 

Comemoramos dia 20 de setembro a Revolução Farroupilha, uma guerra que tem suscitado diferentes opiniões. Qual é a sua?  
ZCD - 
Meu trisavô foi morto na Revolução Farroupilha pelos Farrapos. Ele era legalista. Se eu fosse político na época estaria contra ele. O Rio Grande do Sul, assim como Santa Catarina e Paraná, era discriminado. Não tínhamos pontes nos nossos rios, não tínhamos colégio. O RS produzia o charque para abastecer quase todo o Brasil. Os nossos impostos eram pagos e iam direto para o Rio de Janeiro, para que depois separassem a parte que era do Governo Federal,  devolvessem o que cabia ao Estado. E, por sua vez, o Estado devolvia a parte da intendência (o equivalente as prefeituras). Quando os valores retornavam, já vinham defasados. Às vezes demoravam até três anos para devolver.

 

Um dos motivos da Revolução Farroupilha foi esse. Bento Gonçalves era um homem preparado. Era deputado, não era uma pessoa inculta. Ele insistia, discutia e pedia para que o RS tivesse o mesmo tratamento dispensado ao Rio, São Paulo e Minas Gerais. Ele batalhava por um tratamento igualitário. Tanto insistiu que embraveceram com o Bento. Ao invés de os outros estados comprarem o charque daqui, aumentaram tanto a taxa de impostos sobre o nosso produto, que passaram a comprar da Argentina, em detrimento à economia local.

 

O Bento Gonçalves não era separatista, como muitos pensam. Realmente havia, naquele grupo, três separatistas: Antônio de Souza Netto, Gomes Portinho e Manuel Lucas de Oliveira. A proclamação da República Riograndense aconteceu na ausência de Bento, que em seguida foi preso na Ilha do Fanfa e posteriormente transferido para a Bahia. Quando aconteceu a Batalha do Seival, que hoje é Candiota, mas na época era Piratini, Netto foi forçado por Portinho e por Lucas de Oliveira a proclamar a República. Ele também era separatista, mas não queria porque tinha muita ligação com o Bento. A Dona Caetana Garcia Gonçalves, esposa do Bento, era prima em segundo grau da minha avó. Quando o Bento escapou da Bahia, graças à maçonaria, e retornou, não quis desmoralizar os companheiros que tinham proclamado a República Riograndense. Uma das conquistas foi que o imposto territorial passou a ser pago direto nas intendências, deixando de ir para o Rio para depois retornar.