Um símbolo em reconstrução

Sustentabilidade  

 
18/07/2016 20:09 - Atualizado em 18/07/2016 20:31

Um símbolo em reconstrução
Construção do novo artefato foi liderada por Martial (Crédito: João Mattos)

Historicamente, ela exerce influência sobre o comportamento, os desejos e até os relacionamentos. Da Roma antiga aos góticos, a cruz é um dos ícones mais antigos da humanidade e tem lugar especial em Minas do Camaquã.

Por um longo tempo, ela foi cartão-postal do distrito de Caçapava do Sul. De qualquer parte da vila, podia ser vista sobre um rochedo de cerca de 100 metros de altura, que ganhou o nome de Pedra da Cruz. O projetista de máquinas e equipamentos Martial da Costa Coelho de Souza, 71 anos, foi um dos responsáveis pela construção e instalação do artefato em dezembro de 1968. 

Passados mais de 45 anos, Souza recorda o projeto como se fosse hoje e conta que, desde o início, tinha como objetivo ser um ponto de referência no vilarejo. Segundo ele, a instalação no morro, então chamado de Guarita do Índio, foi um pedido especial do industrial ítalo-brasileiro Francisco ‘Baby’ Matarazzo Pignatari (1917-1977), acionista majoritário da antiga Companhia Brasileira de Cobre (CBC).

De acordo com o projetista, Pignatari costumava visitar a localidade a cada 15 dias, sempre aos finais de semana. Para chegar lá, costumava fazer o percurso, a partir de São Paulo, de avião particular. Em uma dessas viagens, ele teria se estendido até Rivera, na fronteira com o Uruguai, e o piloto acabou perdendo a rota correta para voltar a Minas do Camaquã. “Já era noite, eles estavam em Santana da Boa Vista, sem ponto de referência para voltar e pousar. A solução, por meio de rádio, foi solicitar aos trabalhadores da mina que levassem os carros até a pista para iluminá-la”, relembra.

Souza estava em São Paulo na ocasião, mas afirma que, a partir deste fato, Pignatari decidiu instalar algo que permitisse que, a bordo do avião, o piloto identificasse o local à medida que se aproximava do distrito. “Fizemos o artefato na cor branca, iluminado e foi uma boa referência, inclusive, para a aviação comercial que passou a utilizá-la como orientação de direção”, conta.

Feita de metal treliçado, por um grupo de trabalho composto por seis pessoas, um mês depois do pedido, a obra de 17 metros de altura e “braços” de 11 metros de largura foi transportada, de caminhão, de São Paulo para Minas do Camaquã. Souza explica que a instalação foi comemorada com almoço festivo no distrito. “Vinte e oito pessoas subiram os 800 metros do morro com os oito módulos que formavam a cruz, cada um de 300 quilos, literalmente distribuídos nas mãos.”

Força da natureza

O símbolo permaneceu por anos como um ponto de referência e cartão-postal de Minas do Camaquã. Porém, em 15 de outubro de 2015, um forte temporal atingiu a localidade. Os cabos de aço que auxiliavam na sustentação não foram suficientes para resistir ao evento climático e a cruz desabou do seu local de origem. “Dizem que foi um tornado, uma coisa que nunca tínhamos visto. Agora, as pessoas daqui sentem falta, alguns não conseguem nem olhar para onde ela estava instalada”, afirma o projetista, que atualmente mora no distrito.

Souza, com mais três trabalhadores, já construiu outra obra, praticamente idêntica. Foi elaborada em 12 módulos também com metal treliçado e terá os mesmos 17 metros de altura da antiga. Segundo ele, o novo monumento foi uma encomenda de empresários da região e aguarda definições sobre o método de instalação.